A escola mudou: por que precisamos de um novo olhar para o ambiente educacional?
Compreender o que está por trás do comportamento pode transformar a maneira como a escola intervém
A escola contemporânea enfrenta desafios que não podem ser compreendidos apenas com as respostas que utilizávamos no passado.
Professores e profissionais da educação convivem diariamente com crianças que apresentam dificuldades para manter a atenção, controlar impulsos, lidar com frustrações, permanecer nas atividades, relacionar-se com os colegas ou acompanhar determinadas demandas acadêmicas. Algumas se mostram agitadas e reativas; outras silenciam, evitam participar, parecem desmotivadas ou se isolam.
Diante dessas manifestações, é comum surgir rapidamente uma pergunta:
“O que essa criança tem?”
Entretanto, talvez uma pergunta anterior seja ainda mais importante:
“O que pode estar acontecendo com essa criança?”
A diferença entre essas duas perguntas representa uma mudança significativa na maneira de compreender o comportamento no ambiente escolar.
O comportamento é importante, mas não conta toda a história
O comportamento é aquilo que conseguimos observar.
Uma criança levanta repetidamente da cadeira. Outra não inicia a atividade. Uma terceira reage intensamente quando é contrariada. Outra permanece quieta, mas parece não acompanhar o que acontece ao seu redor.
Essas manifestações são dados importantes. Porém, isoladamente, não explicam suas causas.
Um mesmo comportamento pode estar relacionado a diferentes processos: desenvolvimento das funções executivas, características da tarefa, dificuldades acadêmicas, estados emocionais, experiências de estresse, relações interpessoais, condições ambientais ou à interação entre vários desses fatores.
Por isso, observar um comportamento não significa conhecer imediatamente sua origem.
Esse princípio é fundamental para uma atuação profissional cuidadosa:
Comportamento é dado; interpretação é hipótese.
Quando essa distinção é compreendida, o profissional deixa de procurar respostas imediatas e passa a formular perguntas.
Quando acontece?
Em quais situações?
Com quais pessoas?
O que acontece antes?
O que acontece depois?
Esse comportamento aparece em todos os ambientes?
Existem situações nas quais a criança consegue responder de maneira diferente?
É nesse momento que o olhar deixa de ser apenas descritivo e começa a se tornar investigativo.
O cérebro da criança ainda está em desenvolvimento
Outro aspecto fundamental para compreender a experiência escolar é reconhecer que o cérebro infantil está em processo de desenvolvimento.
Habilidades que os adultos frequentemente esperam das crianças, controlar impulsos, esperar, organizar materiais, planejar uma tarefa, manter informações mentalmente enquanto executam uma atividade, mudar de estratégia e lidar com frustrações, dependem, entre outros fatores, do desenvolvimento das chamadas funções executivas.
Controle inibitório, memória de trabalho e flexibilidade cognitiva não surgem prontas. Desenvolvem-se progressivamente ao longo da infância e adolescência e são influenciadas tanto pela maturação quanto pelas experiências vivenciadas.
Isso modifica a pergunta diante de determinados comportamentos.
Em vez de:
“Por que ele não se controla?”
podemos perguntar:
“Quais habilidades essa situação está exigindo e quais delas essa criança ainda precisa desenvolver?”
Essa mudança não significa retirar limites ou responsabilidades da criança. Significa construir intervenções compatíveis com seu desenvolvimento.
Emoção e aprendizagem não acontecem separadamente
Durante muito tempo, razão e emoção foram tratadas como processos relativamente independentes. Atualmente, sabemos que essa separação é insuficiente para compreender como as pessoas aprendem.
Atenção, memória, tomada de decisão, resolução de problemas e comportamento são influenciados pelos estados emocionais e pelas condições nas quais a experiência ocorre.
Uma criança preocupada com uma situação familiar pode ter dificuldade para concentrar-se. Um aluno que repetidamente experimenta fracasso diante de determinada disciplina pode começar a evitá-la. Uma criança que teme errar diante dos colegas pode permanecer em silêncio mesmo conhecendo a resposta.
Por isso, dificuldades observadas na escola não devem ser analisadas exclusivamente a partir do desempenho acadêmico.
É necessário compreender “a criança que está tentando aprender”.
Antes da autorregulação, existe a co-regulação
Existe ainda outro aspecto importante.
Esperamos que crianças aprendam a controlar emoções, tolerar frustrações, esperar, negociar conflitos e reorganizar-se depois de experiências difíceis.
Mas a autorregulação é uma habilidade construída progressivamente.
Antes de conseguir organizar seus estados internos de maneira mais autônoma, a criança depende significativamente das relações estabelecidas com adultos capazes de oferecer previsibilidade, orientação, limites consistentes e suporte emocional.
Esse processo é denominado co-regulação.
Isso significa que o adulto não está apenas ensinando conteúdos. Sua maneira de falar, aproximar-se, estabelecer limites, organizar transições e responder aos momentos de dificuldade também participa da experiência educacional.
Surge, então, uma pergunta importante para a escola:
Quem regula quem no ambiente escolar?
O ambiente também participa da aprendizagem
Quando pensamos em dificuldades escolares, frequentemente olhamos primeiro para a criança.
Entretanto, uma análise mais ampla também observa o ambiente.
Como essa sala está organizada?
As instruções são claras?
Existe previsibilidade?
Como os erros são recebidos?
Como os conflitos são mediados?
A criança sente que pode pedir ajuda?
Como são realizadas as transições entre atividades?
Há oportunidades de participação e pertencimento?
Henri Wallon já destacava a impossibilidade de compreender o desenvolvimento infantil separando a criança do meio no qual ela se constitui. Afetividade, movimento, cognição e relações participam de um processo integrado de desenvolvimento.
A Neurociência contemporânea acrescenta novos conhecimentos a essa compreensão ao demonstrar as profundas relações entre experiências, estresse, emoção, atenção, memória e aprendizagem.
O ambiente escolar, portanto, não constitui apenas o cenário no qual a aprendizagem acontece.
Ele participa das condições em que a aprendizagem se torna possível.
Segurança não significa ausência de limites
Falar em ambiente emocionalmente seguro não significa construir uma escola sem regras, frustrações ou desafios.
A criança precisa encontrar limites.
Precisa aprender a esperar.
Precisa lidar progressivamente com erros, conflitos e situações que não acontecem exatamente como gostaria.
Segurança está muito mais relacionada à existência de relações previsíveis, limites compreensíveis, respeito, pertencimento e adultos capazes de orientar a criança diante das dificuldades.
Um ambiente seguro não elimina desafios.
Ele oferece condições para que a criança possa enfrentá-los sem sentir que está sozinha diante deles.
Do “acho que essa criança tem...” para a formulação de hipóteses
Talvez uma das transformações mais importantes para os profissionais que atuam na escola seja aprender a tolerar o espaço existente entre observar um comportamento e encontrar uma explicação para ele.
Nem toda desatenção significa TDAH.
Nem toda oposição significa um transtorno opositor.
Nem todo isolamento significa necessariamente uma condição clínica.
Isso também não significa ignorar sinais importantes ou deixar de encaminhar uma criança para avaliação quando necessário.
Significa fazer algo anterior:
investigar.
Uma atuação cientificamente fundamentada procura reunir informações, observar diferentes contextos, identificar padrões, considerar hipóteses alternativas e acompanhar a resposta da criança às intervenções realizadas.
Assim, a pergunta deixa de ser:
“Qual rótulo explica esse comportamento?”
e passa a ser:
“Quais hipóteses precisamos investigar para compreender melhor o que estamos observando?”
Essa mudança protege a criança de conclusões precipitadas e, ao mesmo tempo, qualifica a tomada de decisão profissional.
Um novo olhar não significa apenas aprender novos conceitos
Conhecer Neurociência não deve significar substituir antigos rótulos psicológicos ou pedagógicos por novos rótulos neurobiológicos.
Não basta dizer que determinado comportamento “vem da amígdala”, “é o córtex pré-frontal” ou “é o sistema nervoso”.
O desenvolvimento humano é complexo.
Cérebro, corpo, emoções, relações, experiências, cultura, ambiente e aprendizagem interagem continuamente.
Por isso, uma Neurociência aplicada ao contexto escolar precisa ser crítica, interdisciplinar e cuidadosa.
Seu valor não está em oferecer uma explicação cerebral para cada comportamento.
Seu valor está em ajudar o profissional a formular perguntas melhores.
A escola mudou. Nosso olhar também precisa mudar.
Talvez o grande desafio da educação contemporânea não seja apenas aprender novas técnicas de intervenção.
É aprender a olhar novamente.
Olhar para a criança antes do diagnóstico.
Olhar para o desenvolvimento antes da cobrança.
Olhar para o contexto antes da conclusão.
Olhar para as relações antes de responsabilizar exclusivamente o indivíduo.
Olhar para aquilo que acontece antes do comportamento.
Quando o profissional amplia sua compreensão, também amplia suas possibilidades de intervenção.
É essa perspectiva que fundamenta a proposta da Pós-Graduação em Neurociência Aplicada à Psicologia Escolar: aproximar Neurociência, Psicologia e Educação para formar profissionais capazes de compreender o desenvolvimento e o comportamento de maneira mais integrada, crítica e cientificamente fundamentada.
Porque uma escola diferente não começa apenas com novas metodologias.
Começa também com novas perguntas.
E talvez uma das mais importantes seja:
Antes de perguntar “o que essa criança tem?”, estamos preparados para investigar o que pode estar acontecendo com ela?
Compreenda o cérebro. Entenda o comportamento. Transforme sua intervenção na escola.
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Co-regulação na escola: por que a criança n
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