Co-regulação na escola: por que a criança não aprende a se regular sozinha?

Co-regulação na escola: por que a criança não aprende a se regular sozinha?
Psicologia

27/08/2026

Co-regulação na escola: por que a criança não aprende a se regular sozinha?

Quando uma criança chora, se irrita, se agita, paralisa diante de uma atividade ou demonstra dificuldade para lidar com uma frustração, é comum que o adulto diga:

“Você precisa se acalmar.”

Mas existe uma questão anterior que merece atenção: a criança já possui recursos suficientes para conseguir se acalmar sozinha?

A capacidade de reconhecer emoções, modular respostas, tolerar frustrações e recuperar-se depois de situações difíceis não nasce pronta. A*autorregulação é construída progressivamente ao longo do desenvolvimento, e as relações com adultos responsivos exercem papel importante nesse processo.

É nesse contexto que encontramos a co-regulação.

 O que é co-regulação?

Co-regulação é o processo pelo qual outra pessoa oferece suporte relacional, emocional e comportamental que auxilia a criança a organizar suas respostas diante das experiências que ainda não consegue administrar de maneira totalmente autônoma.

Na infância, esse processo começa muito cedo. O bebê depende do adulto para alimentação, proteção, conforto e organização de seus estados. À medida que cresce, essa dependência se modifica, mas a relação continua participando do desenvolvimento das capacidades regulatórias.

Gradualmente, aquilo que inicialmente acontece na relação com o outro pode contribuir para a construção de recursos que a criança passará a utilizar com maior autonomia.

Por isso, podemos compreender a relação entre os dois conceitos da seguinte maneira:

Co-regulação → desenvolvimento de recursos regulatórios → maior capacidade de autorregulação.

Isso não significa que o adulto regula completamente a criança nem que toda dificuldade emocional possa ser resolvida pela presença de outra pessoa. Significa reconhecer que a autorregulação se desenvolve em um contexto relacional e depende também da maturação, das experiências, das características individuais e das oportunidades de aprendizagem.

 O que isso significa dentro da escola?

A criança não deixa seu sistema emocional do lado de fora quando entra na sala de aula.

Ela chega à escola trazendo experiências, expectativas, medos, frustrações, níveis diferentes de desenvolvimento e diferentes capacidades para lidar com aquilo que acontece ao longo do dia.

Uma atividade difícil, uma mudança inesperada de rotina, um conflito com um colega, o medo de errar, uma avaliação ou uma repreensão podem exigir recursos regulatórios que determinada criança ainda está desenvolvendo.

É justamente nesses momentos que a maneira como o adulto responde pode fazer diferença.

Compare duas situações.

Uma criança começa a demonstrar irritação diante de uma atividade que não consegue realizar.

O adulto pode dizer:

“Pare com isso. Todo mundo está conseguindo. Você precisa prestar atenção.”

Ou pode aproximar-se e dizer:

“Percebi que essa atividade ficou difícil. Vamos olhar juntos para a primeira etapa e depois você tenta a próxima.”

Nos dois casos, existe uma demanda para que a criança continue a tarefa.

Entretanto, a segunda intervenção acrescenta algo fundamental: suporte para que ela consiga reorganizar-se e voltar à atividade.

Isso é co-regulação aplicada ao cotidiano escolar.

 Co-regular não é fazer pela criança

Esse é um ponto essencial.

Co-regulação não significa retirar todas as dificuldades, evitar frustrações, permitir qualquer comportamento ou resolver os problemas pela criança.

Também não significa que o professor precise transformar-se em terapeuta.

Co-regular significa oferecer presença, previsibilidade, orientação e suporte compatíveis com as necessidades e com o nível de desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo em que são mantidos limites e expectativas adequados.

O adulto pode dizer:

“Eu entendo que você ficou bravo. Mas não podemos machucar o colega. Vou ajudá-lo a se acalmar e depois vamos pensar no que podemos fazer.”

Há acolhimento, mas também existe limite.

Há compreensão, mas também existe orientação.

Há suporte, sem retirar da criança a oportunidade de desenvolver autonomia.

 O adulto também faz parte do ambiente regulatório

Quando pensamos em ambiente escolar, geralmente lembramos da sala, dos móveis, dos estímulos visuais, dos materiais e da organização física.

Mas existe outro componente importante do ambiente:

as pessoas.

O tom de voz do adulto, a velocidade com que fala, sua expressão facial, sua postura, a previsibilidade de suas respostas e a maneira como estabelece limites fazem parte da experiência relacional da criança.

Isso nos conduz a uma pergunta importante:

 Quem regula quem na escola?

Um adulto muito ativado diante de uma criança desregulada pode aumentar a intensidade da interação. Voz elevada encontra voz elevada. Pressa encontra resistência. Irritação encontra irritação.

Por outro lado, um adulto capaz de perceber seu próprio estado e organizar sua resposta tem maior possibilidade de conduzir a situação de maneira intencional.

Por isso, falar em co-regulação infantil também significa falar sobre autorregulação do adulto.

 Co-regulação e aprendizagem

Co-regulação não é um tema separado da aprendizagem.

Quando uma criança está emocionalmente mobilizada por medo, frustração, conflito ou preocupação, recursos cognitivos importantes podem ser afetados. Atenção, memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade cognitiva e tomada de decisão participam continuamente das atividades escolares.

Isso ajuda a compreender por que, algumas vezes, insistir imediatamente no conteúdo não é a intervenção mais eficiente.

Em determinadas situações, precisamos primeiro ajudar a criança a recuperar condições para participar.

Regular não substitui ensinar. Regular pode criar melhores condições para que o ensino aconteça. Como a escola pode favorecer a co-regulação?

Pequenas mudanças nas relações cotidianas podem ser importantes:

 estabelecer rotinas relativamente previsíveis;

 antecipar mudanças quando possível;

 oferecer instruções claras e compatíveis com a idade;

 utilizar um tom de voz firme, porém respeitoso;

 reconhecer a emoção sem necessariamente concordar com o comportamento;

 dividir tarefas complexas em etapas;

 ajudar a criança a identificar alternativas diante de conflitos;

 estabelecer limites consistentes;

 observar sinais de sobrecarga antes que a situação se intensifique;

 favorecer experiências de pertencimento e conexão;

 ensinar progressivamente estratégias que a própria criança possa utilizar.

O objetivo final não é fazer com que a criança dependa permanentemente do adulto.

É exatamente o contrário.

Co-regular também é ajudar a construir autonomia.

 Um novo olhar para o comportamento escolar

Quando compreendemos a co-regulação, uma mudança importante acontece.

Diante de uma criança desorganizada, deixamos de perguntar apenas:

“Como faço esse comportamento parar?”

E acrescentamos:

“O que essa criança ainda precisa para conseguir se reorganizar?”

Essa pergunta não elimina a responsabilidade, os limites ou as regras da escola.

Ela amplia a compreensão.

E quando ampliamos a compreensão, ampliamos também nossas possibilidades de intervenção.

A Pós-Graduação em Neurociência Aplicada à Psicologia Escolar propõe justamente esse movimento: compreender desenvolvimento, comportamento, regulação, relações e aprendizagem de maneira integrada, aproximando conhecimento científico das situações reais encontradas no cotidiano educacional.

 Para refletir

Antes de exigir que uma criança se autorregule, precisamos perguntar: quais experiências de co-regulação estamos oferecendo para ajudá-la a construir essa capacidade?

Porque, muitas vezes, aquilo que desejamos ver acontecendo dentro da criança começa sendo construído na relação com o outro.

 

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