Co-regulação na escola: por que a criança não aprende a se regular sozinha?
Quando uma criança chora, se irrita, se agita, paralisa diante de uma atividade ou demonstra dificuldade para lidar com uma frustração, é comum que o adulto diga:
“Você precisa se acalmar.”
Mas existe uma questão anterior que merece atenção: a criança já possui recursos suficientes para conseguir se acalmar sozinha?
A capacidade de reconhecer emoções, modular respostas, tolerar frustrações e recuperar-se depois de situações difíceis não nasce pronta. A*autorregulação é construída progressivamente ao longo do desenvolvimento, e as relações com adultos responsivos exercem papel importante nesse processo.
É nesse contexto que encontramos a co-regulação.
O que é co-regulação?
Co-regulação é o processo pelo qual outra pessoa oferece suporte relacional, emocional e comportamental que auxilia a criança a organizar suas respostas diante das experiências que ainda não consegue administrar de maneira totalmente autônoma.
Na infância, esse processo começa muito cedo. O bebê depende do adulto para alimentação, proteção, conforto e organização de seus estados. À medida que cresce, essa dependência se modifica, mas a relação continua participando do desenvolvimento das capacidades regulatórias.
Gradualmente, aquilo que inicialmente acontece na relação com o outro pode contribuir para a construção de recursos que a criança passará a utilizar com maior autonomia.
Por isso, podemos compreender a relação entre os dois conceitos da seguinte maneira:
Co-regulação → desenvolvimento de recursos regulatórios → maior capacidade de autorregulação.
Isso não significa que o adulto regula completamente a criança nem que toda dificuldade emocional possa ser resolvida pela presença de outra pessoa. Significa reconhecer que a autorregulação se desenvolve em um contexto relacional e depende também da maturação, das experiências, das características individuais e das oportunidades de aprendizagem.
O que isso significa dentro da escola?
A criança não deixa seu sistema emocional do lado de fora quando entra na sala de aula.
Ela chega à escola trazendo experiências, expectativas, medos, frustrações, níveis diferentes de desenvolvimento e diferentes capacidades para lidar com aquilo que acontece ao longo do dia.
Uma atividade difícil, uma mudança inesperada de rotina, um conflito com um colega, o medo de errar, uma avaliação ou uma repreensão podem exigir recursos regulatórios que determinada criança ainda está desenvolvendo.
É justamente nesses momentos que a maneira como o adulto responde pode fazer diferença.
Compare duas situações.
Uma criança começa a demonstrar irritação diante de uma atividade que não consegue realizar.
O adulto pode dizer:
“Pare com isso. Todo mundo está conseguindo. Você precisa prestar atenção.”
Ou pode aproximar-se e dizer:
“Percebi que essa atividade ficou difícil. Vamos olhar juntos para a primeira etapa e depois você tenta a próxima.”
Nos dois casos, existe uma demanda para que a criança continue a tarefa.
Entretanto, a segunda intervenção acrescenta algo fundamental: suporte para que ela consiga reorganizar-se e voltar à atividade.
Isso é co-regulação aplicada ao cotidiano escolar.
Co-regular não é fazer pela criança
Esse é um ponto essencial.
Co-regulação não significa retirar todas as dificuldades, evitar frustrações, permitir qualquer comportamento ou resolver os problemas pela criança.
Também não significa que o professor precise transformar-se em terapeuta.
Co-regular significa oferecer presença, previsibilidade, orientação e suporte compatíveis com as necessidades e com o nível de desenvolvimento da criança, ao mesmo tempo em que são mantidos limites e expectativas adequados.
O adulto pode dizer:
“Eu entendo que você ficou bravo. Mas não podemos machucar o colega. Vou ajudá-lo a se acalmar e depois vamos pensar no que podemos fazer.”
Há acolhimento, mas também existe limite.
Há compreensão, mas também existe orientação.
Há suporte, sem retirar da criança a oportunidade de desenvolver autonomia.
O adulto também faz parte do ambiente regulatório
Quando pensamos em ambiente escolar, geralmente lembramos da sala, dos móveis, dos estímulos visuais, dos materiais e da organização física.
Mas existe outro componente importante do ambiente:
as pessoas.
O tom de voz do adulto, a velocidade com que fala, sua expressão facial, sua postura, a previsibilidade de suas respostas e a maneira como estabelece limites fazem parte da experiência relacional da criança.
Isso nos conduz a uma pergunta importante:
Quem regula quem na escola?
Um adulto muito ativado diante de uma criança desregulada pode aumentar a intensidade da interação. Voz elevada encontra voz elevada. Pressa encontra resistência. Irritação encontra irritação.
Por outro lado, um adulto capaz de perceber seu próprio estado e organizar sua resposta tem maior possibilidade de conduzir a situação de maneira intencional.
Por isso, falar em co-regulação infantil também significa falar sobre autorregulação do adulto.
Co-regulação e aprendizagem
Co-regulação não é um tema separado da aprendizagem.
Quando uma criança está emocionalmente mobilizada por medo, frustração, conflito ou preocupação, recursos cognitivos importantes podem ser afetados. Atenção, memória de trabalho, controle inibitório, flexibilidade cognitiva e tomada de decisão participam continuamente das atividades escolares.
Isso ajuda a compreender por que, algumas vezes, insistir imediatamente no conteúdo não é a intervenção mais eficiente.
Em determinadas situações, precisamos primeiro ajudar a criança a recuperar condições para participar.
Regular não substitui ensinar. Regular pode criar melhores condições para que o ensino aconteça. Como a escola pode favorecer a co-regulação?
Pequenas mudanças nas relações cotidianas podem ser importantes:
estabelecer rotinas relativamente previsíveis;
antecipar mudanças quando possível;
oferecer instruções claras e compatíveis com a idade;
utilizar um tom de voz firme, porém respeitoso;
reconhecer a emoção sem necessariamente concordar com o comportamento;
dividir tarefas complexas em etapas;
ajudar a criança a identificar alternativas diante de conflitos;
estabelecer limites consistentes;
observar sinais de sobrecarga antes que a situação se intensifique;
favorecer experiências de pertencimento e conexão;
ensinar progressivamente estratégias que a própria criança possa utilizar.
O objetivo final não é fazer com que a criança dependa permanentemente do adulto.
É exatamente o contrário.
Co-regular também é ajudar a construir autonomia.
Um novo olhar para o comportamento escolar
Quando compreendemos a co-regulação, uma mudança importante acontece.
Diante de uma criança desorganizada, deixamos de perguntar apenas:
“Como faço esse comportamento parar?”
E acrescentamos:
“O que essa criança ainda precisa para conseguir se reorganizar?”
Essa pergunta não elimina a responsabilidade, os limites ou as regras da escola.
Ela amplia a compreensão.
E quando ampliamos a compreensão, ampliamos também nossas possibilidades de intervenção.
A Pós-Graduação em Neurociência Aplicada à Psicologia Escolar propõe justamente esse movimento: compreender desenvolvimento, comportamento, regulação, relações e aprendizagem de maneira integrada, aproximando conhecimento científico das situações reais encontradas no cotidiano educacional.
Para refletir
Antes de exigir que uma criança se autorregule, precisamos perguntar: quais experiências de co-regulação estamos oferecendo para ajudá-la a construir essa capacidade?
Porque, muitas vezes, aquilo que desejamos ver acontecendo dentro da criança começa sendo construído na relação com o outro.
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